Kiko Loureiro: entrevista exclusiva ao My Guitar

Além de excelente guitarrista, é um exemplo de humildade e musicalidade.
Além de excelente guitarrista, é um exemplo de humildade e musicalidade.

Por Diego Pena e Junior Frascá

 

Que o Kiko Loureiro, guitarrista do Angra e um dos maiores nomes do instrumento no Brasil e no mundo, é uma referência no mercado de guitarra rock/metal/instrumental, não é novidade pra ninguém. Que a agenda do cara também é super concorrida, também pode-se imaginar. Que o cara vive em viagem, seja em turnê com o Angra, divulgando seus trabalhos solo, ou ainda em eventos de sua endorser Ibanez, também faz parte da rotina.

O que surpreende nessa entrevista EXCLUSIVA que vocês vão ter o privilégio de ler, é a humildade de um cara tão bem sucedido como ele. O Kiko já tem grana, fama, reconhecimento, viaja o mundo todo, toca e já tocou com os melhores músicos do planeta, e ainda assim dedicou 40 minutos (!!!!) do seu tempo em Los Angeles para gravar as respostas para nossa entrevista. Você vai descobrir quem é a sua maior influência, os percalços de se estar em uma banda e, mesmo assim, seguir em frente, processo de composição, carreira e muito mais.

Apesar do trabalho em transcrever as respostas, é um material muito rico para quem quer saber mais sobre música, guitarra, mercado, e em como ser um músico de sucesso. Afinal de contas, é o retrato desse cara. Não temos o costume de ficar “babando ovo” de ninguém, mas esse material é daqueles para se ler e reler várias vezes.

Chega de enrolação e vamos ao que interessa. Com vocês, Kiko Loureiro.

 

Atualmente, qual sua opinião sobre os discos “Aurora Consurgens” e “Aqua”? Eles corresponderam às expectativas da banda em termos de vendas e reconhecimento pelos fãs?

Kiko: Em termos de venda hoje em dia é complicado falar, porque as vendas de discos estão em declínio desde o começo dos anos 2000, pois houve uma mudança no mercado fonográfico que afeta todos; houve uma mudança de comportamento de todos, inclusive meu, em relação a como ouvir música, como comprar. Passou para o itunes, que hoje também parece estar com os dias contados, e agora é o streaming, e a gente já sabia que isso ia acontecer há pelo menos uns 10 anos atrás, quem acompanha o mercado já sabia. O que é novidade mesmo é o youtube se tornando rádio e coisas assim. Por isso, em termos de venda, não me interessa muito, eu acho que o reconhecimento dos fãs é importante, e a sensação em relação aos álbuns, como eles se comportam na história da banda quando você enxerga o álbum com uma visão mais longa temporal. Esses dois álbuns citados, assim como o próprio “Fireworks”, refletem momentos conturbados de relação pessoal dentro da banda. Eu gosto de muitas músicas nesse álbuns, e do próprio conceito, eu acho muito legal. Mas sinto assim que, para se ter um bom álbum, aquele que fica marcante, como um “Black  Album” do Metallica, um “Painkiller”, um “Back in Black”, um “Powerslave”, um “Dark Side of the Moon”, toda banda tem os seus álbuns fantásticos nos quais acontece uma grande congruência de coisas que é muito difícil saber o que rola,  porque os álbuns ficam incríveis. É uma vontade de fazer um som melhor, misturado com o momento do mercado, com o clima pessoal de cada, apoio de gravadora, maneger, momento de família do cara, criatividade no momentos dos membros, sei lá o que que é. O tempo de conclusão do material. Alguns álbuns que gostamos muito, como o “Holy Land”, por exemplo, que foi muito bom, a gente se fechou em um sítio, e foi criando coisas diferentes. A gente tentou fazer isso no Aqua, mas foi em um tempo muito mais curto, e muitos preocupados com outras coisas de família. Eu acho que muda muito. São várias coisas, é difícil entender. Em todo disco você busca fazer o seu melhor, mas nem sempre a banda está afinada, o momento está afinado, e várias outras coisas em volta estão a favor. As vezes você acaba de sair de uma tour longa, e já marcou o lançamento do novo disco, e tem que voltar pras gravações sem estar totalmente preparado e no clima. Ou seja, há uma série de coisas que podem afetar. Eu acredito que esses dois álbuns, além de outros do Angra, também tem suas músicas boas. Eu sinto que quando uma álbum tem mais músicas que chamam a atenção, é porque você teve mais tempo para trabalhar as músicas, teve mais tempo para um colaborar com o outro, dando uma riqueza no final das contas. Também com o produtor tendo mais tempo para opinar, a música amadurece mais. Acredito que tem muitas músicas boas que acabam não se tornando hits para os fãs, mas que tem melodias muito boas, mas as estruturas não ficaram tão definidas, alguma parte meio que se perde, alguns riffs poderiam ser mais aprimorados; coisas assim que na hora você acha que está legal, mas depois você observa de outra maneira. Mas isso até em músicas que os fãs gostam muito, tem vezes que eu ouço e penso “puxa, poderia melhorar aqui, melhorar ali”, poderia ser um pouco mais lapidado. Eu acho que o grande trabalho do artista é muitas vezes você conseguir lapidar sua boa idéia, tirando os excessos, e deixando a estrutura bem montada, as tonalidades e passagens perfeitas. Isso as vezes acontece de forma natural, as vezes você tem que ficar batalhando muito. Tem pessoas que tem um talento mais fácil de chegar nessa lapidação, outros não. Por isso digo que tem muito a ver com a congruência de todos da banda para chegar nesse ponto.

 

Após estes álbuns, o ANGRA passou por um período turbulento no final de 2011, que culminaram com a saída do vocalista Edu Falaschi, tendo a banda passado por um período de pausa até o retorno no final de 2012, com o vocalista convidado Fabio Lione. Conte-nos um pouco sobre como foi esse período da carreira da banda. Vocês realmente chegaram a pensar em encerrar a banda, como alguns boatos davam conta no início deste período?

Kiko: Esses períodos turbulentos na verdade acontecem em todos os momentos da banda. Eles variam com outros de calmaria e bonança. Isso acontece sempre. Não tem essa de um período que sempre foi uma maravilha. Sempre tem uma dinâmica, como se fosse uma família, com pessoas colocadas em situações muito extremas muitas vezes, com viagens longas, longe da família, se alimentando mal, dormindo em lugares diferentes. Tem o lance legal de viajar, mas tudo é muito cansativo. Então você tem que viajar, já chegar e já tocar; as vezes o equipamento não chegou, ta ruim o som, você ta cansado e tem várias entrevistas e autógrafos para fazer, e você tem que correr pra ir para o show. Há várias coisas extremas que estressam. E tem a parte legal do show, que você se desgasta, mais é há uma relação muito emotiva com os fãs, muito legal. Assim, há muitos ápices emocionais, as coisas boas e as ruins do dia a dia. De repente você tem no dia um show muito legal, lotado, com a galera animada, e no outro dia você tem que acorda muito cedo, com aquela cara de zumbi, para pegar o vôo e ir para outro lugar para outro show. Então, tudo isso te deixa vulnerável a situações cansaço, “saco cheio”, e outros muito legais, de banda em si, de amizade, de risadas, de estar junto ali; mas em outros você queria estar em casa, com a família, mas tem que ficar sempre junto com as mesmas pessoas por um longo período de tempo.

Portanto, os momentos turbulentos sempre existem. Esse negócio de achar que quando tem a saída de um membro, quando alguma coisa vaza, na verdade o período turbulento já passou, ficam algumas mágoas, mas na realidade isso já foi, ficou em um período anterior que os fãs achavam que estava tudo rolando nas mil maravilhas. É que vai tudo acontecendo, vai ficando algumas mágoas, e chega uma hora que acumula e alguém fala que quer sair, ou a banda decide tirar o cara. Eu vejo bem diferente essa relação, pois quem está dentro vê a coisa totalmente diferente do que aparenta para quem está de fora.

 

Para você, qual foi o momento de ruptura de formação mais difícil de enfrentar: aquele ocorrido após o álbum “Fireworks”, ou esse, após o álbum “Aqua” ?

Kiko: O período da ruptura após o “Fireworks” eu creio que foi mais difícil, pois foi a primeira vez que passamos por aquilo. Segundo porque estava saindo o André, o vocalista, e o Ricardo, e nós já estávamos vivendo uma fase esquisita ao longo do ano. O André já estava querendo sair antes do “Firework”, e havia uma fase esquisita durante uns 02 anos antes. Então acompanhamos todo esse processo por um tempo. O André chegou a praticamente sair da banda, e depois foi convencido que seria bom gravar pelo menos mais um disco, mas já parecia algo meio forçado. Então foi bem diferente. No “Aqua” foi um negócio totalmente diverso, não tem como comparar. Na primeira vez foi bem mais difícil. Mas naquela época nós tínhamos muito mais garra de recomeçar, eu o Rafa e o empresário da época.  A gente tinha muita participação dentro da banda, e a gente tinha isso como uma oportunidade de mostrar que muita coisa boa que rolava dentro da banda era feito pelo Rafa e por mim.  E depois conseguimos mostrar isso, fazendo o que veio depois.

 

E como tem sido essa “nova” fase do Angra, com o jovem baterista Bruno Valverde, e com o consagrado vocalista Fabio Lione?

Kiko: Tocar com o Bruno e o Fabio tem sido muito legal. Eu já tocava com o Bruno faz um tempinho, é um cara super talentoso como músico, é uma pessoa bem fácil de lidar, e esta bem preparado para lidar com tudo que temos feito. E o Fabio nem se fala né! Ele tem a mesma experiência que a gente tem, e é um cara super tranquilo, bom de trabalhar. Isso conta muito, devido esse lance todo de estar junto nos momentos fora do palco. Os dois tem idades diferentes, vêm de escolas diferentes, e está sendo muito tranquilo e saudável trabalharmos juntos.

 

Podemos afirmar que Fabio Lione ó o vocalista efetivo da banda, ou ele ainda é um músico convidado?

Kiko: O Fabio está com a gente efetivamente. Foi algo que aconteceu naturalmente, ele começou como convidado, e ficou aquela coisa “fica ou não fica”, e nós até chegamos a cotar alguns músicos brasileiros para cantar na banda. Mas na época teve tanto pedido de show, o pessoal querendo contratar o Angra com o Fabio Lione, fizemos várias turnês, e acabamos decidindo meio rápido de fazer o DVD em SP, no HSBC, e dai a coisa deslanchou, e vimos que estava tudo dando muito certo, e seguimos a máxima do “time que está ganhando não se muda”. E temos curtido muito estar ai com o Fabio do lado, que tem sido muito bom.

 

Embora você e Rafael continuem sendo os principais compositores da banda, você acredita que os novos integrantes trouxeram algo a mais na sonoridade de “Secret Garden”?

Kiko: Todos ajudam muito. O Felipe é super participativo, o Fabio trouxe muitas melodias. Nós sempre fomos abertos. Algumas bandas gringas você vê que são sempre os mesmos caras né. Isso vem desde os Beatles, a maioria era tudo Lennon/McCartney. O Ringo até compunha uma ou duas coisas, e o George também. E desde essa época várias bandas seguem essa regra né. Mas dentro do Angra a gente sempre está aberto para quem traz música, quem compõe. O Edu, por exemplo, era um super compositor, sempre trouxe muita coisa boa para a banda, inclusive algumas ótimas parcerias. O Felipe também está cada vez mais a vontade compondo, e participou bastante com letras, riffs, melodias e tudo mais. E o Fabio também é um cara mais empírico, improvisa umas melodias legais em cima dos riffs que estamos fazendo. Então deixamos bem aberto para ele participar. O Bruno, como entrou depois, não chegou a participar dessa fase mais embrionária das composições, participou mais dos arranjos finais. Mas também estamos abertos para o caso se ele trouxer novas músicas.

 

“Secret Garden”, embora mantenha intactas as características fundamentais do ANGRA, traz também evidente um lado mais progressivo e introspectivo da banda, que vem se tornando evidente desde o álbum “Aurora Consurgens”. Essa é uma linha que vocês decidiram seguir, ou algo que surgiu naturalmente, com a evolução de vocês como músicos e instrumentistas?

Kiko: Cara, nem tinha notado esse lado mais introspectivo da banda, se tem mais nestes discos e outros não; se por exemplo o “Fireworks” não tem, o “Temple of Shadows” não tem. Da minha parte eu não vejo muita diferença entre esses discos. Eu vejo que talvez a gente evita algumas coisas mais “alegrinhas”, que tinha lá no começo, como aquele Paganini no meio de “Angel’s Cry”. Particularmente eu nunca faria um negócio desse de novo. Essa coisas alegrinhas talvez não mais. Mas é ótimo ver essa sua percepção sobre o nosso lado mais introspectivo. E isso tudo sai naturalmente, a gente compõe o que estamos afim, o que sai, e selecionamos o melhor. Nós tínhamos material para umas 20 músicas. Havia algumas mais prontas, outras mais incompletas, algumas que falávamos “olha, isso é muito legal, vamos dar um gás maior”; e outras nem tanto, que sentíamos ser mais viajadas, e então era cortada. Mas esse segundo caso é sempre mais difícil, alguém trazer algo que não tem legal para ser descartado, pois nós hoje estamos bem maduros, e todos aceitam bem as coisa. Eu mesmo levei várias idéias que não foram usadas, assim como o Rafael. Até porque em um álbum não cabe todas as idéias de todos. Isso é bom porque se resolvermos gravar um outro disco rápido, temos bastante material para começar.

 

Esse lado mais intimista e emotivo do novo álbum é reflexo dessa fase turbulenta que a banda passou nos últimos anos?

Kiko: Eu não sei se ele é mais intimista e emotivo cara. Ele tem que ser emotivo pois as músicas sempre são emotivas. Por exemplo, mais emotivo que o “Rebirth”  não tem como. A gente querendo fazer música para mostrar que era capaz e tal, provar para nós mesmos que podíamos seguir. Mais emotivo que “Angel’s Cry”, no qual era um monte de moleques querendo mostrar para o mundo que também era capaz. O próprio “Holy Land”, no qual a gente queria mostrar um certa brasilidade, inclusive para o próprio produtor, que era o mesmo do disco anterior, que a gente tinha umas idéias malucas e diferentes. Sempre muito emotivo. E lado mais intimista até pode ser, mas eu acho que isso é uma percepção bem pessoal. Até porque em discos como “Rebirth”, “Temple of Shadows”, estávamos também com partes turbulentas. Alias, gravar um disco é um parto, e é tudo muito turbulento. Se um dia escrever um livro, uma biografia, dá pra escrever várias coisas turbulentas de cada período de produção e pré-gravação dos nossos discos.

 

E como surgiu a ideia de contarem com as participações das vocalistas Simone Simons (Epica) e Doro Pesch (Doro) no novo álbum?

Kiko: Nós estávamos com aquela música “Secret Garden”, na qual nós achávamos que, por causa da história do disco, do cientista, o jardim secreto que ele vai então encontrar a mulher dele que faleceu. Então tinha tudo a ver ter uma voz feminina. Até experimentamos fazer a demo com o Fabio cantando, experimentamos um pouco, mas não ficou legal. Dai fizemos uma demo com uma voz feminina, que não era a Simone. Ai ficamos pensando em alguma cantora feminina, e como o Fabio era amigo da Simone, falamos com ela, mandamos a música, ela gostou, e foi muito legal termos sua participação. Sobre a Doro, justamente porque a gente chamou a Simone, pintou a idéia de chamarmos a “Rainha do Metal”, uma lenda. O nosso empresário, Paulo Baron, conhece muito a Doro, e foi ele quem teve a idéia, nos dizendo que já que teríamos uma vocalista da nova geração, porque também não uma da geração anterior. Ma ai já foi diferente, porque tivemos que pensar em qual música ela se encaixaria melhor, e decidimos por um dueto com o Rafa.

 

E seus outros projetos, quais os planos para o futuro próximo?

Kiko: Tem os shows no Japão agora, tem os shows no Brasil em junho, tem o Wacken e mais shows vindo aí. No meu caso, estou focado em dar algumas entrevistas, vamos dar uma ensaiada, tem alguns eventos também que eu faço. Tem também os vídeos pro Youtube, uma série de vídeos que eu estou gravando que se chama “Passando o Som” (veja os vídeos aqui), falando sobre music business, carreira, dando um toque pra galera que quer se profissionalizar na música. Eu peguei esse mês de março para gravar esses vídeos. Em fevereiro eu estive na Europa pra fazer a turnê de lançamento da minha guitarra da Ibanez. Nós participamos do (cruzeiro) Motor Rock Cruise, depois fui pra Europa fazer a turnê com a Ibanez, agora voltei, estou em Los Angeles, mas estou gravando esses vídeos em português para manter a relação com a galera do Brasil e passar um pouco da minha experiência. Está sendo bem legal responder pra galera, ver o que eles querem, mostrar os vídeos. Vou fazer uma série de 12 vídeos, e depois eu vou ver se dá pra continuar ou não.

 

Há uma diferença nítida de produção ente o “Aqua” e o “Secret Garden”. Como isso acaba influenciando no processo de composição das músicas?

Kiko: Realmente, a produção do “Aqua” tem uma nítida diferença, sem dúvida. O “Aqua” foi gravado no Brasil, com um orçamento bem menor, e o “Secret Garden” tinha um orçamento bem maior. Resolvemos também gravar 2 clips, inclusive um vai ler lançado agora, foi gravado no Museu da TAM. O álbum é uma super produção, foi gravado na Suécia, chamamos o Roy Z para participar. Nós fizemos um planejamento pra isso acontecer, apesar de o mercado ditar completamente o contrário: que você gasta muita grana e esse dinheiro não volta. Mas nós achamos importante deixar um disco bem gravado, assim como o último DVD gravado em São Paulo no HSBC Brasil. A produção não influencia no processo de composição, mas os arranjos e a sonoridade final importam bastante, dá uma outra cara pra música, dá um impacto. A pessoa ouve melhor, se emociona mais, porque o som também conta. O arranjo, os teclados, as vozes, a coisa bem afinada, bem conduzida, com profundidade. Profundidade no sentido de que a pessoa ouve o disco várias vezes e consegue reparar em uma série de detalhes que fazem com que a pessoa “entre mais” na viagem sonora, não só da música e da harmonia, mas também dos arranjos, dos sons, delays, efeitos. No nosso estilo, isso conta muito. A produção não influencia na composição em si mas, com certeza, faz com que as composições cresçam.

 

Você e o Rafael são, talvez, uma das melhores e mais entrosadas duplas de guitarristas do mundo. Como um acaba influenciando o outro na maneira de tocar e compor? Como é a divisão das partes que cada um toca nas músicas?

Kiko: Em primeiro lugar muito obrigado pelo “entrosados”. Com certeza, o Rafael é a minha maior influência e eu sou uma grande influência pra ele, a gente convive desde os 17 anos. Então eu sou, queira ele ou não, o cara que ele mais tenha visto tocar na frente dele. Eu acompanho o Rafael compondo na minha frente, eu vejo, aprendo, discuto sobre música, a gente ouve música juntos, assiste a outras bandas juntos, discute sobre isso, vê os conceitos, vê o que a gente quer. É um aprendizado mútuo constante. Obviamente quando perguntam sobre as influências, as pessoas citam Jimmy Page, Jimi Hendrix, mas na verdade o Rafael é a minha maior influencia na música, sem dúvidas. A divisão das partes que cada um toca nas músicas, depende de quem fez a música. A gente dá uma olhada no disco e tenta dividir os solos igualmente. Por exemplo, na “Storm of Emotions”, ele faz os solos, os 2 solos, pois tem outras músicas que eu já tinha feito, para dar uma equilibrada. Quem grava as guitarras é quem fez a música, que já está por dentro da música. O Felipe também grava guitarras no disco. Ele gosta, toca bem, faz uns riffs “pesadões”. Quando precisa de alguma coisa à lá James Hetfield, Megadeth, ele manda bem pra caramba. É bom porque divide o trabalho e tem mais uma sonoridade diferente. Tem músicas que o próprio Felipe fez, riffs que ele compôs. Então esse lance da guitarra tem muito a ver com quem compôs, quem está super dentro da música, dos detalhes, não precisa ficar ensinando. Aí quando nós vamos pro show, pra tour, um ensina o outro.

 

Sua capacidade de improviso e construir belas melodias e solos melhora a cada trabalho lançado. O que você tem estudado nos últimos anos para aperfeiçoar sua sonoridade?

Kiko: Eu não tenho estudado nos últimos anos. Eu tinha que estudar mais, eu estudei mais quando era moleque. Eu toco mais, reparo mais, seleciono mais, e busco alguns detalhes que possam fazer o estilo, que possam fazer uma identidade. Existem ótimas melodias e ótimas coisas em outros trabalhos. Com o passar do tempo a gente tem mais facilidade e mais experiência. Mas facilidade de entrar e não ter medo de arriscar, de mostrar as ideias. E quanto menos medo você tem de arriscar, mais a criatividade flui. É bem simples, você trava menos. Cada vez mais você tem discernimento do que você já fez, pra onde tem que ir para não se repetir.

 

Falando sobre técnica, como você mantém a sua habilidade técnica sempre em forma? Existe uma série específica de exercícios que te ajudam a se manter sempre veloz e nítido?

Kiko: O lance da habilidade técnica é o estudo. Eu não estudo como estudava antes, mas principalmente se eu tenho algum compromisso eu vou lá e fico treinando bastante antes e procuro tocar com constância, praticamente todo dia. Tem dia que não dá por causa de viagens e tal, mas sempre procuro tocar. Antes de alguma turnê, uma gravação, alguma coisa importante, eu pego uns dias antes e dou uma “exagerada”, tocando algumas horas seguidas. E as próprias músicas já pedem isso. As coisas que eu gravei com o Angra, ou nos meus discos solo, já tem um nível bem razoável de técnica, que só pelo fato de tocar essas músicas, você obrigatoriamente tem que estar com a técnica boa.

 

 

Os fãs do Angra, e do seu trabalho solo também, com certeza tem uma lista de músicas/solos que você fez como as favoritas. E pra você, quais são seus solos ou músicas favoritos, daquelas que quando ficaram prontas você pensou “essa ficou do ca…”?

Kiko: Cara, é assim: tem as músicas que a gente curte, tem as músicas que a gente curte e sabe que a galera curte, tem as músicas que a gente curte porque faz tempo que não toca. Por exemplo, se alguém pedir assim “Kiko, toca Streets of Tomorrow”, eu vou curtir porque eu vou lembrar, porque faz tanto tempo que eu não toco essa música que eu vou curtir. Toda vez que a gente “resgata” uma música que faz tempo que não toca, vai tocar “Running Alone”, a gente lembra daquela época, lembra do momento, então você curte mais pelo fato de estar tocando uma música que fazia tempo que não tocava. Aí tem músicas muito boas, pelo fato de terem nascido muito espontaneamente, de uma forma rápida, tipo “Rebirth”, “Angels and Demons”, músicas que saem em uma tarde, o que é impressionante, saem quase prontas. São músicas que eu gosto não por serem melhores que as outras, mas pela forma que elas nasceram. Eu gosto de músicas que eu fiz como “Sprout of Time”, “Morning Star”, músicas diferentes assim. E gosto bastante de músicas que os outros caras da banda fizeram, como a “Gentle Change” que o Rafa fez, “Holy Land” que o André fez, “Lease of Life” que o Edu fez, “Whishing Well”. Curto muito essas músicas porque são músicas que eu não conseguiria ter feito, entende. É muito bom estar rodeado de compositores tão talentosos. E solo é a mesma coisa. Eu curto muito os solos do disco “Fireworks”, que são solos muito improvisados. O produtor deixava a gente gravar e não ficava em cima “faz de novo aqui, corrige ali…”. São solos longos que ficaram muito naturais. Não que os outros não sejam, mas não tinha o produtor do lado deixando a coisa super perfeita, como no “Temple of Shadows” por exemplo, que tem uma dobras que a gene fez à exaustão até o negócio ficar mega perfeito.

 

O que você aconselharia aos garotos que estão começando a tocar agora mas, que com essa overdose de informação que temos atualmente, acabam ficando um pouco perdidos sobre o que estudar?

Kiko: Pra quem está começando a tocar, quem que estudar, se preocupar com a música, tem que tomar cuidado com as distrações da internet e de outras coisas. Guardar um tempo para realmente estudar o instrumento, estudar música, um tempo pra que você fique na internet pesquisando e outro tempo pra que você fique fazendo sua parte social na internet, que é uma coisa muito importante que você tem que criar, seus seguidores, sua base de fãs. Você tem que ser um portal, um curador, um cara que também indique para as pessoas o que é legal e o que não é, não só sobre sua música. Você pode usar a internet de várias formas. O grande lance da internet é que hoje você não precisa esperar ninguém te escolher. Quando a gente começou, há muito tempo atrás, a gente precisou gravar uma fita demo e ficar mandando para várias pessoas para ver se alguém falava “olha, essa banda é legal” e alguém escolhia a gente e falava “nós vamos gravar você”. E isso sempre foi assim: “vamos ver se a revista coloca a gente em uma matéria”, “vamos ver se a revista coloca a gente na capa”, “vamos ver se essa rádio toca a banda ou não”, “vamos ver se essa gravadora assina a banda ou não”. Ficava muito nisso. E hoje em dia, se você quer gravar uma música, vai, grava e põe na internet. Se você quer gravar um vídeo, escrever um livro, um blog, quer tirar uma foto legal, vai e faz. Não espere ninguém. Sem medo das críticas, sempre pensando que você é a forma “beta” de você mesmo. Você pode melhorar, pode se moldar, vai fazendo cada vez melhor e sempre colaborativamente com as pessoas te criticando. E se você for uma pessoa inteligente e conseguir se blindar das críticas que te derrubam e pegar as críticas boas, e os toques que as pessoas dão, e conseguir extrair o que é de bom, você vai longe. Vai melhorando com o passar do tempo e não precisa de ninguém te escolher. Então estude muito, vai lá e faz. Mete as caras e faz, e ganhe seu espaço nessa turbulência, nessa overdose de informação.

 

Mande uma mensagem para o pessoal que segue o My Guitar e que é fã do seu trabalho.

Kiko: Obrigado pela entrevista. Eu já falei tanto que eu nem sei mais o que falar rsrsrs. Desejo felicidades a todos. E relativo à pergunta anterior, assistam aos vídeos que eu estou fazendo do “Passando o Som” no meu canal do Youtube (veja os vídeos aqui). Obviamente os assuntos não estão muito aprofundados, são dicas, drops sobre os conceitos. Eu também fiz uns cursos em São Paulo ano passado, que também vou fazer esse ano no segundo semestre, sobre essa questão de como a pessoa se portar em sua carreira, como achar seu espaço. Assistam aos vídeos e grande abraço!

 

Se você ainda não ouviu o novo álbum do Angra “Secret Garden”, leia nossa resenha aqui.

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